Amos Genish, ex-presidente da GVT e atual presidente da Vivo, fez uma declaração polêmica durante o evento de telecomunicações ABTA 2015. O executivo comparou o WhatsApp a uma operadora de telefonia pirata e afirmou que a Vivo jamais ofertaria algum plano que diferenciasse o tráfego de dados do aplicativo, como estão fazendo as concorrentes.

O argumento é que o WhatsApp usa os números da própria operadora para oferecer ligações por VoIP e, sendo assim, não paga o Fistel. Mas, até onde sei, o WhatsApp não mantém uma rede de telefonia própria, e a portabilidade numérica começou no Brasil em 2008. Desde então, os números deixaram de ser propriedade de determinada operadora e passaram a ser do próprio cliente.

Mesmo assim, por mais absurda que seja essa comparação, é possível entender a frustração da operadora: o WhatsApp é praticamente onipresente nos smartphones e revolucionou a forma como as pessoas se comunicam.

Tanto SMS como WhatsApp entregam mensagens. Só que existe uma grande diferença usando a segunda opção: para os clientes, dados são bem mais baratos que SMS. Enquanto as operadoras costumam cobrar por cada mensagem enviada (com no máximo 160 caracteres), uma interação por texto no WhatsApp consome menos de 5 kilobytes. Enquanto um pacote mensal ilimitado de SMS custa cerca de R$ 14 nas principais operadoras, é possível contratar um plano de internet de 200 MB pelo mesmo valor e ter tudo o que a internet pode proporcionar.

Achei na gaveta um telefone que usava em meados de 2009, um Nokia 3120 classic. Pluguei no carregador e tive uma bela surpresa: todas as minhas mensagens de texto estavam lá. Eram 729 SMS enviadas num período de 12 meses. Naquela época, a mensagem custava cerca de 40 centavos – ou seja, R$ 291,60 apenas em SMS. Tive a mesma curiosidade sobre o uso do WhatsApp e me deparei com 7.039 mensagens enviadas no último ano. Atualmente, me comunico muito mais sem me preocupar com a conta no final do mês.

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Genish encorajou outras operadoras a não adotarem política de zero-rating para o WhatsApp. Foi um momento terrível para a declaração: a TIM, que disputa a liderança de mercado nacional com a Vivo, tomou a direção contrária e lançou nesta quinta-feira (6) um pacote mensal para pré-pagos, chamado Turbo WhatsApp, que custa R$ 12 e permite 50 MB por dia de uso no aplicativo e mais 50 MB para navegar na internet durante o mês. A Claro também mantém estratégia similar com seus planos mais novos.

Estamos entrando em uma época em que o texto supera a voz, algo que marca o fim da telefonia tradicional. Os resultados financeiros do segundo semestre da TIM provam isso: em um ano, o tráfego de dados da operadora subiu em 32%, enquanto o serviço de voz caiu em 13%. A internet se tornou uma porta de acesso para muitos serviços que antigamente tinham canal dedicado para isso.

Muitos estão substituindo a TV por assinatura por canais de YouTube, Netflix e outros serviços online. Agora, a revolução é da telefonia móvel: mesmo que em algum momento o WhatsApp perca sua base de usuários, as pessoas migrarão para uma plataforma que também dependa de internet. Em tempos de neutralidade da rede, a Vivo ou qualquer outra operadora brasileira nada pode fazer contra isso, a não ser se reinventar e buscar novas formas de obter receita.